quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Uma escrita obra de arte

O texto "A literatura e a Vida" de Deleuze me fez lembrar uma das minhas aulas na faculdade, onde um de meus colegas de classe, Mateus, atual colega de pesquisa, apresentou um trabalho sobre aprendizagem que amei e nunca vou esquecer, uma verdadeira obra de arte, e vale muito o tempo de leitura.
Depois de muito procurar o texto na zona que é meu computador e conseguir a permissão dele, o trabalho se encontra logo abaixo.


 Abecedê – Um resgate do conceito de “sentido”, da língua e da criação. 

por Mateus Neto dos Reis

     O objetivo primeiro deste trabalho é tecer uma discussão a cerca da aprendizagem da linguagem, tendo como ponto de partida o resgate do conceito de “sentido” trabalhado por Lev Vygotsky em sua abordagem histórico-cultural. Apoia-se na linha de pensamento desenvolvida pelo autor para afirmar a mutualidade na constituição do pensamento e da linguagem, buscando os cortes inovadores desta concepção que visam explodir as margens das palavras lançando-as ao social. O outro objetivo é costurar este pensamento às contribuições das filosofias de Deleuze e Bergson, bem como aos fios trazidos pela obra de Foucault, para problematizar o processo ensino-aprendizado da linguagem, onde se acredita que a inserção na língua feita de forma normativa ameaça o desenvolvimento das linhas de criação e invenção de si e do mundo – linhas de fuga. Atente-se à costura: não se trata de uma aposta na palavra. Esta é uma aposta no palavrarte. 


As contribuições de Vygotski ao conceito de “sentido” – Uma palavra, mil vozes, uma cantoria. 

     É no texto “Pensamento e Palavra” que Vygotski aponta que a solução para o estudo da consciência está na relação entre pensamento e linguagem. A discussão que se faz nas tramas deste texto está bordada na tese de que “o vínculo entre tais processos se forja e se transforma no desenvolvimento histórico da consciência”. Para o autor, a mútua constituição entre pensamento e linguagem tem como base a premissa de que esta “não é um simples reflexo especular da estrutura do pensamento”, e de que o pensamento “não se exprime na palavra, mas nela se realiza”. 

     Assim como nos Manuscritos sobre a Crise da Psicologia, Vygotsky põe olhos nas diferenças, esboça rupturas: faz um apanhado das produções existentes e acentua um impasse das reflexões que se propunham compreender a relação entre a linguagem e pensamento, pois grande parte os considerava processos independentes e tentava estudar o pensamento discursivo mediante a decomposição de seus elementos. Frente a isso, o autor se propõe a adotar um caminho metodológico distinto: elege-se, portanto, o significado da palavra como unidade de análise da relação historicamente constituída entre pensamento e linguagem. Vygotsky aponta que sua investigação permite avanços em relação ao elementarismo porque o significado da palavra, por estar na interseção entre pensamento e linguagem, contém as propriedades do todo em função das quais se realiza a análise: 

encontramos no significado da palavra essa unidade que reflete de forma mais simples a unidade do pensamento e da linguagem. ... Não podemos dizer que ele seja um fenômeno da linguagem ou um fenômeno do pensamento. A palavra desprovida de significado não é palavra, é um som vazio. Logo, o significado é um traço constitutivo indispensável da palavra. ... Deste modo, parece que temos todo o fundamento para considerá-la como um fenômeno do discurso. ... Do ponto de vista psicológico o significado da palavra não é senão uma generalização ou conceito. Generalização e significado da palavra são sinônimos. ... Consequentemente, estamos autorizados a considerar o significado da palavra como um fenômeno do pensamento. Não obstante, conforme o próprio Vygotsky (1934/2001b), apesar de fundamental, essa não era a principal tese da investigação sobre esses processos. Para ele, o cerne e a inovação de seu estudo se radicavam na tese de que os significados das palavras se modificam e se desenvolvem na ontogênese. A descoberta da inconstância e mutabilidade dos significados das palavras e do seu desenvolvimento é a descoberta principal e única capaz de tirar do impasse a teoria do pensamento e da linguagem. O significado da palavra é inconstante. Modifica-se no processo do desenvolvimento da criança. Modifica-se também sob diferentes modos de funcionamento do pensamento. É antes uma formação dinâmica que estática. (Vigotski, 1934/2001b, p.407, 408). 

     A partir disso, o autor diverge de duas vertentes do estudo do pensamento e linguagem: a associacionista e a estruturalista. Para a primeira o significado seria a associação entre a palavra e o objeto designado, enquanto que, segundo a vertente estruturalista, a palavra e o objeto designado formariam uma estrutura igual a qualquer outra. De acordo com Vygotsky, em que pesem suas diferenças, tanto associacionistas quanto estruturalistas não consideravam a especificidade da palavra, tampouco o desenvolvimento dos seus significados. 

     Partindo, justamente, desta tese da dinamicidade do significado que o conceito de “sentido” aparece, em “Pensamento e Palavra”, como fundamental para a investigação da relação pensamento-linguagem. De modo mais preciso, Vygotski coloca na construção do debate a questão do “sentido” para reiterar as particularidades da linguagem interior, dirigida ao próprio sujeito, em relação à exterior, uma vez que, sob sua ótica, o predomínio dos sentidos sobre os significados da palavra na linguagem interior seria uma das maiores ilustrações disso. 

      Vygotsky, atravessado pelas ideias do psicólogo Francês Frederic Paulham sobre a relação entre “significado” e “sentido”, conceitua este último da seguinte forma: 
 o sentido de uma palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. 
       Neste momento o trabalho de Vygotsky nos ajuda amarrar um ponto de costura fundamental para esta discussão. A definição de “sentido” trazida acima proporciona que o mesmo seja entendido como acontecimento semântico particular, constituído através de relações sociais, onde uma gama de signos é posta em jogo, o que permite a emergência de processos de singularização em uma trama interacional histórica e culturalmente situada. 

“Não tem margens a palavra.” (Manoel de Barros) 

      É aqui que se situa a maior contribuição deste autor aos que falam: suas ideias são capazes para pensarmos o explodir das margens das palavras, ao passo que descontornam os limites de seus processos de significação. Segundo a reflexão vygotskiana, o “sentido”, bem como os signos, não estariam nem na mente, nem na natureza, nem em instâncias transcedentais aprioristicamente. O “sentido” se produziria nas práticas sociais, através da articulação dialética da história de constituição do mundo psicológico com a experiência atual do sujeito. Abrem-se vias para que se admita a polissemia da linguagem e, consequentemente, para que se pense em múltiplas construções de sentidos. Sendo assim, concede-se a liberdade aos signos e aos sentidos, deixando-os circular por aí, pulando de boca em boca. Em dez mil bocas, em mil vozes, jamais em “uno”, mas sempre em uma forte e coletiva cantoria. 


Linguagem e criação – O que quer, o que pode esta língua?


 “E deixe os Portugais morrerem à míngua 

‘Minha pátria é minha língua’ 

Fala Mangueira! Fala!”(Língua – Caetano Veloso)


       Mais uma vez traço cortes com modos tradicionais de compreensão da linguagem, como a concepção representativa – que propõe a linguagem como mediador entre a ordem da realidade e a ordem das atividades abstratas do pensamento. Assim, aceito o convite para pensar a linguagem como detentora de poder de criação de novos sentidos e novas realidades, junto de autores da vertente pragmática da linguagem, assim como das filosofias de Deleuze e Bergson. 

      A partir do trabalho de Austin (1990), consideram-se determinações pragmáticas provindas de convenções sociais na composição do sentido das palavras, o que confere a este o poder de transformar fatos do mundo. 

Os clássicos exemplos “declaro o réu culpado” ou “batizo esta criança” são ditos que não se limitam a expressar em signos fatos exteriores à palavra. Não existe um ato de batismo, uma sentença atribuída ao réu, anterior ao dizer. É a própria enunciação que realiza o ato. Tais exemplos servem ao argumento de que o sentido destas enunciações não pode ser atribuído apenas à gramática e à sintaxe; a força de intervenção provém, segundo Austin, das convenções sociais, externas à linguagem e resultantes de acordos estabelecidos pela comunidade falante que, então, atribui ou não a estas frases o sentido pragmático, ou seja, o poder de julgar, transformar o suspeito em culpado, ou de legitimar a inclusão de novos membros na comunidade religiosa. 

     No entanto, se o sentido pragmático reside nas palavras, também não se confunde com estas. Sobre as palavras, Clarice Lispector nos auxilia: “Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.”. Convidamos, então, Clarice a pensar conosco: se o poder de intervenção do sentido no real não se localiza na sintaxe ou na gramática, onde detectar mais especificamente os determinantes do sentido pragmático? 

       Para Foucault, é preciso esticar a linha de pensamento a fim de avançar na discussão. Ele propõe, então, que pensemos para além das convenções sociais, e mira, como uma boa chave para a questão, o plano das condições do dizer. Segundo o autor, são as circunstâncias históricas, os jogos de poder de cada época, que decidem o que pode ser dito. Desse modo, a noção austiniana de sentido pragmático se amplia, alcançando não só as instituições sociais constituídas, mas também as forças e os vetores políticos produtores das condições de possibilidade do dizer. 

     Uno a minha voz às letras de Clarice, que é sempre tão incrível e atual, para exaltar o poder das palavras. É justamente neste sentido em que se aposta na liberdade em palavra, acreditando que na medida em que se acessa este plano de criação – e, portanto, livre – pode-se intervir na vida, criando outros mundos. 

     É possível dizer que as palavras e suas combinações mais convocadas à língua de forma excessiva encontram-se em um estado de “cansaço” – aqui, faço referencia as palavras pouco vibráteis, que não chamam a atenção dos ouvidos quando passam – e, por isso, podem ser entendidas como atuais. Enquanto que as convidadas em menor frequência, ou até mesmo em raridade, bem como as inventadas, estão contidas na dimensão virtual. 

     A filosofia de Henri Bergson nos dá suporte para pensarmos esta dimensão criadora a partir do conceito de virtual. Segundo Kastrup, “podemos dizer que a atualização de virtualidades é um processo de diferenciação, cujo resultado não estava dado de antemão.”. É nesta direção que se pode apreender atualizações efetivamente novas, que possibilitem a criação de novos modos de existir – mas potentes e compositivos. 

A criança e a linguagem – Por um abecedê e pra-lá-vão nos processos de significação 

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, oco; 
ao ponto de ninguém e de nuvem. 
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na 
sarjeta. 
Sou mais a palavra ao ponto de entulho. 
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las 
pro chão, corrompê-las 
até que padeçam de mim e me sujem de branco. 
Sonho exercer com elas o ofício de criado: 
usá-las como quem usa brincos. 

(Manoel de Barros) 

     Movido pelo afeto gerado neste processo de pesquisa, me permito a tecer os últimos fios desta discussão – a fim de deixá-los soltos e pendurados, prontos para a próxima costura. Estes perpassam por uma problemática muito comum nos estudos em Psicologia da Linguagem, à qual eu irei me endereçar neste momento: a relação entre sujeito e linguagem. 

      Desconfio daqueles que não se engasgam para falar. Que não gaguejam, que não mordem a língua, que não se desesperam. Duvido dos que atiram palavras, sequências, sem titubear: mãos ao alto! Aí vem o palavrório – conjunto de palavras sem muita importância indo ao chão. Pois bem: suspeito de quem não sofre de engarrafamento de palavras no esôfago. Uma mínima retenção já é sinal verde de saúde. Afinal, desembocar palavras, colocar problemas, palpitar, deve ser uma tarefa tão cautelosa quanto a de libertação de prisioneiros. Apoiado no trabalho de Vygotsky, e admitindo a mutualidade dos processos de pensamento e linguagem, a questão que se faz é a seguinte: falar, assim como pensar, deve ser transgredir. Um abrir de celas: um pra-lá- vão – conjunto de palavras sem muitas amarras indo ao encontro do mundo. 

     Penso que essa dificuldade no trânsito, na escolha das palavras, é tributária, especialmente, a uma falácia da qual nossos corpos se acostumaram a acreditar: circularam por aí burburinhos de uma suposta traição. Muitas vezes é anunciado que a linguagem nos prega peças, que nos engana e entrega a outrem nossos desejos mais subterrâneos e pessoais. Dizem que pela errância da palavra; pelo esquecimento; pela troca, e, pasme, pela brincadeira, seríamos traídos. Na contramão, aposto que o maior ato falho cometido foi o de ter espalhado rumores e fofocas de uma traição que jamais se fez existir. 

   A voz e a canção-manifesto de Caetano Veloso “Língua” soma, joga junto, para um encaminhamento de passagem ao impasse: 

“A língua é minha pátria 

E eu não tenho pátria, tenho mátria 

E quero frátria”

       A pátria, pelo termo, vem daquele que é nosso pai. Assim, a língua, representante da pátria seria uma espécie de pai. Entretanto, conhecemos o português como “Língua mãe” e até nosso país é mãe até em nosso hino: “dos filhos desse solo és MÃE gentil, pátria amada, Brasil.”. 
No entanto, tanto a imagem do pai como da mãe, desde as questões freudianas até as foucaultianas são palco de traumas e poderes. Caetano, então, propõe que a língua seja frátria – irmã – e que esteja ao lado, não por cima, numa hierarquia. 
Neste novo cenário mais harmonioso, propõe-se a linguagem não como uma incidência sobre o sujeito – como quem vem de cima para dominar. Assim como em Caetano, afirmo a linguagem em uma relação lateral ao sujeito, construindo sentidos lado ao lado, e criando mundos outros. 

      Atente-se à trança: as gotas de tinta que pintam estas palavras que vos falam, neste papel que já foi inteiramente branco, estão aqui reunidas pelo esforço de fazer as pazes entre os pares dessa narrativa: sujeito e linguagem. 

      Vygotsky trazendo a formulação de que não há pensamento sem linguagem e vice versa, e ao fazer cambiar os contornos das palavras redistribuindo a formação dos sentidos às práticas sociais, promove uma cisão com concepções que aprisionam os signos e os sentidos em um campo pessoal e individual deslocado das trocas sociais. Assim, o processo de significação de si e do mundo se torna coletivo, múltiplo e dinâmico – jamais estático. Isto nos ajuda a levar a linguagem a um campo de reconciliação com o sujeito na medida em que o discurso jamais é apenas uma produção individual. Aquilo que significo nunca foi tão somente só meu. 

      Deleuze contribui para esta reflexão ao propor um novo modo de se conceber o desejo. O autor entende que todo desejo é revolucionário, porque investe no real, o rearranja, desestrutura. Partindo de uma leitura deleuziana, é possível afirmar o desejo como movimento: “faz passar estranho fluxos que não se deixam armazenar numa ordem estabelecida” (Deleuze & Guattari, Anti-Édipo), “constrói máquinas que, inserindo-se no campo social, são capazes de fazer saltar algo, de deslocar o tecido social” (Deleuze& Guattari, Mil-Platôs). Com base nisso, proponho a me pensar a linguagem não como um instrumento revelador, mas produtor de desejos. 

     Sendo assim, amarro o último nó desta rede: o da linguagem inventiva. Entendo que é interessante, e essencial para esta discussão, pensar que não se escorrega na palavra. Mas com ela. E este brincar é o trampolim que nos permite saltar à dimensão virtual – onde se podem encontrar palavras e sentidos fresquinhos, jamais usados, potentes na tarefa transformadora. Este tipo de linguagem é exclusivamente produto desejante – de modo que rompe com os sentidos construídos socialmente, instaura novos e intervém no real. Faço, por fim, um apelo por uma prática de ensinoaprendizagem da linguagem pela via do palavrarte – usando de dispositivos como a poesia e a literatura – visando que a capacidade inventiva transborde os limites do papel e bordem as falas mais cotidianas com linhas de fuga – de vida. Às crianças, a permissão ao des-acerto. E “deixe que digam, que pensem, que falem”. E criem. 

Referências Bibliográficas 

BARROS, J. P. P., PAULA, L. R. C. de, PASCUAL, J. G., COLAÇO, V. de F. R. e XIMENES, V. M. 2009. “O conceito de “sentido” em Vygotsky”. Psicologia & Sociedade; 21 (2): 174-181. 

KASTRUP, V. Virtualizar / Atualizar. In: FONSECA, T. M. G., NASCIMENTO, M. L., MARASCHIN, C. (Org.). Pesquisar na Diferença – Um Abecedário Porto Alegre: Sulina, 2012. 245-246. LISPECTOR, Clarisse. As Três Experiências. 

TEDESCO, S. H.; PEREIRA VALVIESSE, K. S. . 2009. Linguagem e criação: considerações a partir da pragmática e da filosofia de Bergson. Arquivos Brasileiros de Psicologia (UFRJ. 2003), v. 61, p. 1-12. 

VIGOTSKI, L. A Formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Quando a criatividade tenta o photoshop + falar


"Não há linha recta, nem nas coisas nem na linguagem." (DELEUZE, 1997)

O quanto a escrita pode ser um refúgio, ou o quanto é? Eu realmente não gosto de escrever, minha paixão é falar (mas até isso é difícil hoje, já que ninguém mais quer conversar). 
As palavras, e como elas correm, e o quanto elas expressam claramente ou não, o quanto não podemos ou não conseguimos interpretar, tudo isso me fascina. 
Posso não gostar de escrever, mas reconheço a liberdade que a escrita dá, e liberdade é autonomia. E a escrita te deixa ir, te deixa devanear, e o limite mora aí, junto do limite do devaneio.


Foi um dia ótimo para sentar e refletir mais e mais


Alguns bons curtas para refletir hoje e amanhã e depois de amanhã e depois...

1- Porque o planeta é nosso, foi feito p'rá nós e nuca vai acabar... certo? Man

2- Seres humanos meros objetos. Meu digno trabalho ^^ El empleo

3- Algo com o que ninguém parece se importar e que parte meu coração Gift

Uma boa dica é o filme argentino "Relatos Selvagens" (Relatos Salvajes), que é a união de seis curtas, ou seis episódios e me faz pensar, sabe aquela linha entre o descontrole e o controle quando se sente muita raiva ou decepção, não cruze-a.


O Rodinei de Cheias de Charme



Rodinei, personagem de Jayme Matarazzo em Cheias de Charme, antiga novela da Globo, é um grafiteiro muito talentoso que trabalha em uma mercearia em uma condomínio de luxo, e participa de um grupo de grafiteiros chamado Borralho Crew. 
Seu personagem começa a ter mais destaque na novela a partir do momento em que encontra um de seus grafites impressos em um convite da Galehip, galeria de Sonia Sarmento, antagonista na novela. Enraivecido por sua arte ser usada para fins consumistas, resolve pedir explicações para a dona no atelie, porém é retirado da galeria à força. No tumulto, um dos seguranças perde o molho de chaves, dando ao artista a oportunidade  de invadir o lugar durante a noite, onde grafita toda a loja em forma de protesto, mas tem efeito oposto, promovendo a galeria. Mais adiante, com a promoção de sua imagem por parte de uma critica de arte famosa que viu seu trabalho na Galehip, Rodinei acaba indo para a Alemanha e fica rico.

O personagem de Rodinei utilizava sua arte como forma de protesto, ativismo, e se recusava a ganhar dinheiro com ela, porém com a influência de Liara, sua namorada na novela e gerente da Galehip, ele decide utilizar sua fama e o dinheiro que passa a ganhar para alavancar seus protestos.

A história do personagem me faz pensar sobre como certas formas de arte, assim como o ativismo, são criminalizadas e desvalorizadas, mas quando utilizadas por classes mais abastadas, nomes importantes, são vistas como alta moda, riquezas. Vestir roupas rasgadas no Lixão é sinal de extrema pobreza, em bairros de classe alta é moda. Mesmo quando a arte de rua, a arte desmerecida passa a ser reconhecida e vira moda, ela não consegue estender seu valor até suas raízes. A arte que milita, que protesta é mal vista, pois atrapalha e intervém, pois incomoda, até que vire moda.